Exemplo de longevidade: Morre o antropólogo Claude Lévi-Strauss aos 100 anos de idade

O antropólogo é o astrônomo das ciências sociais: ele está encarregado de descobrir um sentido para as configurações muito diferentes, por sua ordem de grandeza e seu afastamento das que estão imediatamente próximas do observador. (Lévi- Strauss -Antropologia Estrutural, 1967)

Nas primeiras aulas de Teoria Antropológica no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás, há dez anos, ouvi pela primeira vez o nome de Levi-Strauss. Confesso, era tudo novidade para mim, mais um dos tantos autores que professores apresentavam. Aos poucos, aprendi a relevância de seu pensamento. A professora de Antropologia falava incessantemente da importância desse autor para o crescimento do curso de Ciências Sociais no Brasil, bem como de sua relevância no debate antropológico como um todo.

A sociedade perdeu no último sábado, 31/10/2009 um ser humano, cientista, professor, antropólogo e etnólogo fantásticos, morre o centenário Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Intelectual de renome, fundamental para a antropologia mundial, um dos fundadores da Universidade de São Paulo (USP), Lévi-Strauss foi um marco intelectual do pensamento social, considerado um dos nomes mais importastes do século XX.

Seu principal legado (se há como fazer tal classificação) foi o rompimento com a abordagem antropológica clássica funcionalista, inaugurando o estruturalismo, corrente de pensamento dominante na segunda metade do século XX. Procurava afastar o etnocentrismo, que via na cultura Européia Ocidental a única forma de produção de pensamento e conhecimento, Lévi-Strauss considerava a cognoscitividade das culturas observadas, dando autonomia aos povos estudados, os elegendo também como produtores de saber.

Além da produção de várias teorias, estudos e publicações no campo da antropologia, Lévi-Strauss também contribuiu amplamente nas áreas da filosofia, sociologia, história e literatura.

Lévi-Strauss realizou parte de seu trabalho de campo no Brasil. Etnólogo, relatou a vivência nos trópicos. Em Mato Grosso, realizou estudos sobre os índios bororos, cadiuéus e nambiquaras. Em algumas de suas viagens passou pela capital de Goiás- Goiânia, hospedando-se no Centro da nossa Capital.

Suas principais obras são: As Estruturas Elementares do Parentesco, Tristes Trópicos, Antropologia Estrutural, O Pensamento Selvagem, Sociologia e Antropologia, Mitológicas, Olhar- Escutar- Ler, Minhas Palavras, além das coletâneas de fotografia tiradas no Brasil, Saudades do Brasil e Saudades de São Paulo.

Em tempos que estudar o aumento da longevidade, o envelhecimento ativo, as contribuições, materiais e simbólicas dos idosos, o legado dessa geração para as de faixa etária menor é tão relevante para ciências sociais, jurídicas e médicas, falar da morte de um centenário é oportuno.  A Sociologia das Gerações trata bem desse fenômeno.

Enquanto conhecedora dessa realidade e mediante o exposto, cabe a mim, falar do prestígio de ter acesso ao legado intelectual de Claude Lévi-Strauss, bem como observar o Sr. Lévi-Strauss, o idoso, centenário, que há quase um século vem compartilhando conhecimento, mostrando que envelhecer é algo digno, é fazer história, é deixar contribuições, questionamentos e pontos de partida para que sigam as gerações mais novas.

A comunidade acadêmica nesta semana de finados está em luto pela morte de Lévi-Strauss, porém, feliz por conhecer seu trabalho, levando consigo muito do que ele ensinou. Tenho orgulho em escrever sobre esse autor, sobretudo, falar do idoso, detentor de muitos saberes, e de uma história de vida que será rememorada por gerações diversas, durante muitos anos.