Coralina lição

Marcus Minuzzi e Sílvia Goulart

Louve-se a encantada procissão goiana purificada. Que Brasil profundo sonhou a luz nova lentamente revelada pela musa longínqua camonianamente forjada nos versos de Cora Coralina? Louve-se esta nova Bahia que aqui floresce.

Os grotões forjam o desterro. A negra brasileira ergue-se em tons novos de sofrimentos. Negros sonham através do ritmo. A mãe liberta seu corpo acorrentado. A mulher encobre a verdade com beleza.

O rosário é lento. Camões quase perdeu seus manuscritos de Os Lusíadas em um naufrágio na costa asiática, segundo aquilo que se narra de sua vida. Pouca fama Camões recebeu em vida, para quem se tornou poeta maior da língua portuguesa. A força camoniana elevou o espírito lusitano, conferindo-lhe grandeza épica.

As penas de uma vida negam o medo. A negra forma da cultura brasileira erige um monumento à dominação pela música. Cora Coralina cantou que vivia dentro dela uma “cabocla velha”, “acocorada ao pé do borralho”. Toscamente vivia esta cabocla. Negras sexualmente faziam bem ao senhor de escravos.

Residindo há apenas dois anos Goiás, vindos do Rio Grande do Sul, tivemos a oportunidade de conhecer a Casa Velha da Ponte, onde nasceu e viveu Cora, bem pouco tempo atrás. A lembrança da poeta eternizará a necessidade materna de parir e alimentar o mundo. Parece o fogo original de algo novo. O medo está onde revela-se o segredo. Poemas são organicamente compostos. O mito de Cora Coralina compõe-se da dor experimentada ao longo de sua vida. Havia, diferente de Drummond, mais do que uma pedra no meio do caminho. O mito coralino situa-se na poderosa e enigmática rua antiga do Brasil. Aí, a pedra põe o corpo a secretar remédios para a cura de males coletivos.

O novo local de cortejar o mito de um povo é a internet. Porém, com adoração musical, a rua antiga projeta sombras que viram sóis dourando a realidade. Quando Drummond, cerca de cinco anos de Cora morrer, a abençoou com um elogio público, escreveu para ela um cortejar de pássaros, levando-a ao reconhecimento nacional.

Muito nos enternecemos ao adentrar a Casa Velha da Ponte. As bases de um novo mito roçam a ternura daqueles que ali conhecem sua vida e sua obra, intimamente relacionadas. Como o naufrágio que poderia ter levado ao fundo do mar os manuscritos de Camões, a novela coralina de uma vida literária escondida na pequena Cidade de Goiás escondeu Cora da notoriedade até praticamente o final de sua vida. O começo do reinado musical de um mito ritualiza-se através da dor. A cabocla feiticeira que viveu dentro de Cora soube atravessar o século da ciência e da tecnologia corporificada em vários de seus versos (“eu sou a mulher mais antiga do mundo”).

Com atenção redobrada, a música que sonha a humanização do mundo pode acordar o coração puro revelado em Goiás como a essência do Brasil. Ouro e monturo se amontoam no destino brasileiro: Cora profeticamente escutou esta música. Louve-se a fonte ornadora a partir da qual a bondade recobre as feridas mais profundas. Louve-se a brandura onde se poderia ver podridão. A dor do mundo era a pedra que Cora Coralina encontrava nas ruas e becos de Goiás. Suas mãos de doceira, “jamais ociosas”, ornaram a dura rotina da mulher brasileira. A musa a mando da doçura cantava a forma íntima da ritualidade que se expressa há séculos no Brasil e que o Carnaval tão bem sintetiza: o corpo nu feminino, ao mesmo tempo revelado e escondido, representa a verdade e a mentira, a maneira artística de aprender com a vida.

Marcus Minuzzi (poeta, jornalista e professor)
Sílvia Goulart (artista plástica e poeta)

Que mulher sou eu?

“Era uma estrela tão alta. Era uma estrela tão fria. Era uma estrela luzindo na minha vida vazia”- Trecho do Poema: A estrela de Manoel Bandeira

Que mulher sou eu? Tenho a pele a clara? Escura? Meu cabelo é liso? Enrolado? Isso não importa.
Que mulher sou eu? Tenho vinte anos. Trinta, trinta e cinco… quarenta. Isso não importa.
Que mulher sou eu? Minha família me “aceita”? Sou a “ovelha negra”? A “ovelha branca”… Isso não importa.
Que mulher sou eu? Sou casada? Solteira? Divorciada? Filha, mãe, esposa, irmã, avó, madrinha… Isso não importa.
Quem sabe me dizer que mulher sou eu? Ninguém… Acho que ouvi algo… Há sim, há uma voz doce, suave, que por sinal se parece com a minha.
“Querida menina, tão cheia de sonhos… Você é um lírio do campo, a flor que desabrocha. A chuva que cai. Você é a benção da vida. Você é um anjo de Deus na Terra. Sei que você consegue vencer todos os rótulos que lhes impõe, mas deve tentar vencer a si mesma. Vença o seu medo, a sua insegurança. Cuide de você. Cuide de quem você sabe que é… e voe, vá para o alto observar como essa sua chance é bela. Perceba seu valor diante da vida, a vida que Ele te deu.

Isabella Morenna

Dia Internacional da Mulher

Ser mulher…

Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a
nossa própria substância. (Simone de Beauvoir)

Mulher, mulher, na escola em que você foi ensinada, jamais tirei um
dez, sou forte mas não chego aos teus pés (Erasmo Carlos)

Respeito e dignidade não têm um dia específico no calendário para serem praticados, são ações cotidianas que perpassam pela vida de populações inteiras, e espera-se que seja condição sine qua non para uma boa convivência em sociedade e exercício da cidadania e democracia.

Ganhar um dia internacional, significa obter visibilidade, além dos já mencionados respeito e dignidade. O dia 8 de março destina-se à comemorar o dia Internacional da mulher. Penso eu que tal fato, é um avanço para as mesmas, e soma-se à diversas outras conquistas obtidas por elas.

Historicamente as mulheres foram oprimidas, violentadas, mal tratadas e silenciadas no mundo todo. O movimento feminista junto a outros movimentos sociais como o movimento negro, estudantil, homossexual, têm ajudado a debater, enfatizar, questionar e mudar a realidade da vida da mulher. Há avanços em diversas esferas.

O machismo ainda é muito presente em nosso cotidiano, porém, através das conquistas alcançadas pelas mulheres, há um empoderamento por parte das mesmas, que resultam em conquistas, físicas e simbólicas para que a opressão e o desrespeito contra esse público diminua, ou quem sabe mesmo que se acabe por completo.

Hoje vemos com maior freqüência as lideranças femininas, em postos de trabalhos, igrejas, na vida acadêmica, movimentos sociais, na vida política, na chefia dos domicílios, ou seja, a mulher vem conquistando postos antes não imaginados a elas.

As mulheres deixaram de ser sujeitas e passaram a construir e escrever suas próprias histórias.

E é por isso que acho relevante parar nesse dia, pelo menos alguns minutos, e pensar na real importância que ele deve ter na sociedade. Algumas mulheres pagaram com a própria vida, não estão mais conosco para vivenciar os avanços que se tem alcançado no que tange aos direitos calorosamente conquistados por mulheres guerreiras, que acreditavam na possibilidade de mudança, lutaram e conquistaram diversos espaços da sociedade.

Basta de Violência contra as Mulheres, Hoje e Sempre!

A Fala da Mulher Pública


Marina Sant’Anna

Por curiosidade fui buscar o que seria ‘homem público’ e li que é aquele que se dedica ou é ligado à vida pública. Adiante vi que ‘homem do mundo’ é lido como um homem da sociedade e que ‘homem do povo’ é visto como representativo dos interesses do homem comum.  Muitas outras características são acentuada e inesperadamente positivas.

Fui então ao que se pensa sobre a mulher e vi que mulher pública, mulher do mundo, mulher do povo, mulher da rua e outras identificações querem dizer, naqueles dicionários, pura e simplesmente ‘meretriz’. Isso eu saindo da adolescência e muito animada com a participação da mulher nos movimentos democráticos de 1970/80. Há pouco fui dar uma olhada nas atualizações e… ops! Quero mais atualizações!

As mulheres estão estudando muito, passando nos concursos públicos, ampliando suas carreiras, avançando como profissionais, militantes políticas, assumindo cargos e responsabilidades de grande poder! As adultas dos núcleos familiares fazem tudo coexistir com a função amorosa e exigente do cuidado em função de quem não tem autonomia temporária ou permanente para se cuidar.

Quem é a Mulher Pública? É aquela cuja palavra, gesto, história, projeto, imagem têm repercussão coletiva!

Quem é Mulher do Povo, Mulher do Mundo, Mulher da Vida? Todas nós, mulheres, que nos juntamos às melhores batalhas pela vida, pelo nosso planeta, no combate à fome, ao racismo, à violência, às discriminações, ao abandono!

Somos também Mulheres da Rua porque estamos em todos os lugares. Somos Garis, professoras, comerciárias, empresárias, taxistas, motoristas de ônibus, repórteres, fotógrafas, motociclistas, assistentes sociais!

Estas somos nós! Mulheres de todos os jeitos, talentos e lugares! Partilhamos, entre mulheres e homens, os caminhos da humanidade.

Somos mulheres, ora certas, ora ‘erradas’. Damas, comédias, brilhantes! Somos a expressão da experiência da sociedade sobre o mundo, sobre o feminino. Gente que ri, chora e se indigna! Que elabora possibilidades e superação! Que se apresenta e disputa espaço.

Quem somos nós? Mulheres Públicas falando, fazendo, influenciando!

Marina Sant’Anna é advogada. Foi Vereadora de Goiânia e Candidata a Governadora de Goiás

Publicado em O Popular, 07 de março de 2010 – www.opopular.com.br

Dia da Mulher – Violência é Crime!

Enviado por Dolly Soares.