Ser brasileiro implica carregar consigo uma série de adjetivos. Bons ou ruins, depende do referencial. Problematizo o que seja bom e o que seja ruim.
Acho fantástico fazer parte de uma cultura miscigenada. Aqui, vivemos juntos e misturados, a mistura é racial, cultura e lingüística, somos uma espécie de colcha de retalhos, formada por pequenas partes, interligadas umas com as outras. Cada uma dessas partes tem tons diferenciados, porém, juntas, formam um todo, um só corpo, a cultura brasileira.
O cidadão brasileiro é um pouco de tudo. Vive entre um povo diferente, mas que tem em comum a brasilidade. Por brasilidade entendo o espírito que une as pessoas, o jeitinho de sempre conseguir as coisas, a solidariedade, sentar a tarde na beira da rua, fazer um puxadinho, botar água no feijão, agregar pessoas, vidas, culturas, enfim, se juntar para assistir jogos, chorar a morte de um ídolo, parar em frente a televisão e se comover com uma cena de violência, fome, miséria, além da diversidade de sotaques, comidas, jeitos de vestir, músicas, danças, costumes, etc.
No exterior, assumir a identidade brasileira é se expor, geralmente a idéia associada a viver no Brasil é carregada de ítens pejorativos. Não somos o país do carnaval, da preguiça e do futebol! Não! Somos parte de um povo de coração gigantesco, de uma cultura rica pelas diferenças e que na soma, resulta em um só.
Desde a colonização feita por portugueses e espanhóis, o Brasil foi estigmatizado. Estigma porque aqui havia índio, porque as roupas aqui utilizadas não eram as mesmas do padrão europeu, porque se andava com pouca roupa, porque a língua era difusa, por fazer parte da América Latina. Vivemos durante muitos anos, fazendo referências às culturas européia e norte-americana. Somos comparados, o tempo todo. O nosso espelho é sempre o europeu ou o norte americano. E nisso, algumas características da cultura brasileira, quase se perderam totalmente.
Costumo dizer que gente não se compara, tampouco é possível comparar culturas. Temos que considerar a história de cada povo, as especificidades, a colonização, a língua, os valores, enfim, fico preocupada quando ouço pessoas falando que nossa justiça tinha que ser como a do país tal, que nossas crianças não seguem um ou outro modelo de comportamento e beleza, que as mulheres que vivem seguem a moda que vem de fora, que o carro importado dá mais status que os fabricados aqui, até o chocolate, feito com leite das “vaquinhas” européias recebem maior êxito e sabor que o feito no Brasil.
O pior é quando se vai a uma loja e a vendedora diz, olha, compra mesmo, é tudo que há de mais moderno, as atrizes norte americanas estão usando. Não quero ser moderna, quero ser respeitada, ser feliz, brasileira, goiana, mulher, negra, estudante, amiga, amante, filha. Tudo isso do meu jeito, carregando obviamente a língua e cultura do meu país de origem.
O Brasil teve suas fronteiras físicas invadidas na chegada do colonizador, tentando impor comportamentos e valores. Isso culminou uma espécie de fronteira social, que está presente até os dias atuais.
Nossa identidade foi sempre marcada como contraditória e tendeu a sofrer com tantas influências importadas e impostas de outros países, não se impõe uma cultura sobre a outra, o que se pode fazer é somar, descobrir quem é o outro. Isso é um exemplo de respeito e alteridade.
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