Proibir ou não as pulseiras do sexo


Toni Reis *

A mania das pulseirinhas surgiu na Inglaterra e chegou ao Brasil no final de 2009. Este ano elas proliferaram nas escolas. O “jogo” funciona da seguinte forma: uma menina coloca diversas pulseiras de silicone coloridas no braço e um jovem tenta arrebentar um dos adereços. Cada cor representa um “carinho”, que vai desde um abraço até a prática de sexo; quem arrebentar receberá a “prenda” da dona da pulseira e vice-versa.

Além da polêmica inerente causada pela conotação sexual, às pulseiras tem sido atribuídos atos de violência sexual e estupro, gerando um movimento a favor de sua proibição. Vejo que em parte estes casos têm surgido não porque a pulseira possui algum poder mágico de incentivar o “mal”, mas porque as crianças e os adolescentes, na maioria, permanecem sem a devida educação sexual que os prepararia para uma sexualidade responsável.

A adolescência é um estágio na vida em que se aflora o interesse pelo sexo. É natural que os(as) adolescentes querem descobrir, explorar e expressar a sexualidade. Proibir as pulseiras do sexo nas escolas é como quebrar o termômetro para baixar a febre da criança. Freud disse que a sexualidade é uma força, uma energia, muito grande, que em vez de reprimida, proibida e sublimada, deve ser entendida. Proibir o uso das pulseiras é esconder o problema debaixo do tapete – fazer de conta que não existe.

A repressão sexual cerceia e impõe normas universais incompatíveis com a singularidade inerente à sexualidade das pessoas. Mais cedo ou mais tarde, alguma coisa há de estourar. Veja o que está dando a sublimação da sexualidade dos sacerdotes. Não é diferente entre os(as) adolescentes. Independente do grau de repressão, chegará o dia em que experimentarão o sexo, queremos ou não. A sexualidade é uma parte muito importante da vida de qualquer ser humano e deve ser valorizada. Os(as) adolescentes devem ser preparados(as) para exercê-la com responsabilidade.

Ao proibir as pulseiras vejo que algumas escolas estão perdendo uma grande oportunidade de discutir a sexualidade de forma aberta e transparente. É fundamental a educação sexual desde a tenra infância, dada pela família, pelas igrejas e pela escola, de forma científica, em que a criança e o adolescente tenham informações, conhecimento e sabedoria para saber o que querem e podem com a sexualidade.

É preciso que os(as) adolescentes aprendam a ter autonomia em relação à sexualidade, de modo a poder realizar suas atividades sexuais independentemente da interferência de fatores externos como, por exemplo, os valores morais vigentes acerca da sexualidade, ou a pressão do meio para realizar atos sexuais sem realmente querer. Em contraposição à imposição heteronômica de normas éticas de conduta sexual, a autonomia é a capacidade do próprio indivíduo determinar o que é sexualmente ético, e agir de acordo. Isto se dá através do diálogo aberto e transparente entre os(as) adolescentes, escola, família e sociedade.

Há iniciativas existentes há bastante tempo para promover a educação sexual nas escolas, como os Temas Transversais dos Parâmetros Curriculares Nacionais (1995) que preveem a discussão nas escolas da sexualidade e da ética, e o programa Saúde e Educação nas Escolas (2003), que se fossem plenamente implementados, contribuiriam para uma sexualidade mais responsável entre os(as) adolescentes.

Vejo que a proibição e a repressão não vão chegar à raiz do “problema”, mas apenas ocultá-lo. Se tomarmos este caminho, vai chegar o momento em que será proibido o biquíni na praia e as adolescentes serão obrigadas a usar a burca e o cinto de castidade, e não teremos formado cidadãos e cidadãs capazes de agirem com autonomia e responsabilidade.

Menos repressão, mais amor e mais educação.

* Especialista em Sexualidade Humana, Mestre de Filosofia na área de ética e sexualidade e Doutorando em Educação na área de educação sexual.

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Prazer, sou Ana Júlia Nascimento, mulher de quase 30 anos, socióloga, doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília. Extremamente preocupada, polemiozadora, inquieta, “super afim” de discutir, compartilhar, trocar informações, pensar nos problemas sociais, sobretudo, falar abertamente, sobre temas da vida cotidiana.

Faço parte do grupo privilegiado de pessoas que ajudarão a trazer temas para reflexão nesse blog, acreditando sempre, numa discussão horizontal, desprovida de preconceitos, respeitando opiniões diferentes da minha, justamente por entender que o crescimento e o respeito sejam pautados no reconhecimento da pluralidade e alteridade.

Bem vind@s a um espaço de PARTILHA que tem tudo para nos levar a profundas análises e debate sobre temas diversos!

Sexualidades: Diversidade sexual em foco

A diversidade sexual, assunto ainda polêmico em alguns espaços, é foco de discussões acadêmicas e do movimento social. Atendendo essas demandas, realizou-se, de 3 a 7 de setembro de 2009, a sétima edição do Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual (ENUDS), na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. O evento contou com a participação de estudantes do Brasil todo, havendo uma representatividade regional, além disso, houve participação de estudantes da Colômbia, tentando dialogar as mesmas questões: gênero, sexualidade, diversidade cultural e racial, ainda que, em culturas diferentes.

O tema do evento era bastante instigante: “Academia e Militâncias em diálogo: diversidade sexual e lutas sociais”, abarcou discussões importantíssimas sobre a realidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transgêneros e transexuais, mostrando como a luta pela diminuição das “fobias” e pelo reconhecimento da diversidade tem se travado no Brasil, dos avanços e retrocessos, das pesquisas acadêmicas, do movimento social e do diálogo entre militância e academia.

Além da diversidade sexual, a questão racial, gênero, diferenças etárias, de classe social e regionalidades  intereseccionaram o debate, visto que, a diversidade sexual é também cercada de embates que envolvem estes temas, e possui ampla necessidade de discussão e conscientização públicas.

Acredito que, o fato de estar na sétima edição, mostra o quão relevante é o encontro, propondo-se discutir temas, aparentemente pouco tratados, mas que vêm cotidianamente, alcançando visibilidade nas agendas públicas, escolas, na mídia e na sociedade em geral. Isso fica evidenciado na riqueza dos debates, que contou com a presença de graduand@s, graduad@s, mestrand@s, mestres, doutorand@s, doutor@s e pós doutor@s de diversas áreas do conhecimento, bem como, com o público que está fora da academia e assim mesmo, luta cotidianamente pelos direitos da população LGBTTT, os movimentos sociais, grupos e ONG´s.

O ENUDS é uma oportunidade de sair do discurso pautado na heteronormatividade (normas binárias, socialmente construídas, baseada em padrões “eleitos” como certos, normais, que privilegiam a heterossexualidade e subjuga a diversidade sexual) e compartilhar experiências de quem sofre preconceito diariamente, por ser lésbica, bissexual, gay, travesti transexual, negra, negro, pobre, não tão bel@, mulher, homem feminizado, mulher masculinizada, não ter um padrão de corpo estabelecido, enfim, saber que as pessoas matam, agridem, humilham, ofendem, discriminam, viram as costas, enfim, reproduzem preconceitos com aqueles que não seguem a norma de corpo e sexualidade padrões, e eu questiono, que norma?

Eventos desse porte, tais como cenas habituais de homofobia, nos leva a algumas reflexões. Vivemos ou não em um país democrático? A luta pela felicidade e pelo reconhecimento da diferença do público LGBTTT, ou ainda, a luta pela promoção da igualdade, incomoda muita gente no Brasil e no mundo. O ENUDS é uma tentativa, dentre as várias outras, para que o mundo seja mais colorido, menos fóbico e mais diverso, pautado no respeito e na promoção de uma cidadania plena.