A deputada federal Marina Sant’Anna (PT-GO) comemora a eleição do brasileiro
José Graziano da Silva, como diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a
Alimentação e a Agricultura (FAO). Na opinião da deputada, Graziano, um dos criadores
do Fome Zero, é a melhor pessoa para atuar pela erradicação da fome no mundo. “Ele é
capacitado, experiente e acima de tudo, sensível e com forte vontade política, é a pessoa certa
no lugar certo”, afirma Marina.
Ex-ministro da Segurança Alimentar e Luta Contra a Fome do Brasil, subdiretor-geral e
representante regional para a América Latina e o Caribe da FAO, no artigo abaixo, escrito dias
antes de sua eleição, ele fala de suas metas para o cargo. Em quatro palavras, a principal
delas: “Três refeições por dia”. Boa leitura.
Do site Terramérica
Três refeições por dia
Por José Graziano da Silva*
Comer é uma necessidade tão fundamental que é estranho questionar a sabedoria de
propor que a FAO faça todo o possível para garantir três refeições em todas as mesas,
afirma neste artigo exclusivo o brasileiro José Graziano da Silva.
Santiago, Chile, 13 de junho de 2011 (Tierramérica).- Luiz Inácio Lula da Silva lançou o
Programa Fome Zero quando assumiu a Presidência do Brasil, em janeiro de 2003, e se
comprometeu a conseguir que toda pessoa em seu país pudesse ter acesso a três refeições
diárias. Eu havia encabeçado a equipe que preparou o programa, e Lula me confiou sua
execução como ministro da Segurança Alimentar e Luta contra a Fome.
Os êxitos do modelo de desenvolvimento obtidos como o Fome Zero são visíveis: 24 milhões
de pessoas saíram da extrema pobreza no prazo de cinco anos e a desnutrição caiu 25%.Não
só cresce o produto interno bruto do Brasil, como um número maior de pessoas se beneficia
desse crescimento. Esta inclusão social e econômica é a principal razão de o país conseguir
enfrentar melhor do que outras nações a recente crise. Oito anos depois do lançamento do
Fome Zero, o Brasil me designou candidato a diretor-geral da Organização das Nações Unidas
para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Em minhas prioridades para a FAO, o primeiro lugar é ocupado pela erradicação da fome no
mundo. Estou certo de que é uma meta possível. O segundo pilar de minha plataforma é
promover a mudança para sistemas de produção de alimentos sustentáveis, que permitam
conservar em boas condições os recursos naturais – solo, água, biodiversidade, clima –
necessários para proporcionar alimentos aos nossos filhos e netos. Como terceiro pilar,
proponho que a FAO e outros organismos internacionais assegurem igualdade no manejo do
sistema alimentar mundial.
Há quem me pergunte por que proponho uma agenda tão ambiciosa quando o mundo está
envolvido em graves crises, com as derivadas dos altos preços do petróleo e de alimentos, do
lento crescimento econômico, da mudança climática, da escassez de terras e de água. Creio
que terminar com a fome, conseguir uma produção sustentável de alimentos e melhorar a
governança global faz parte da solução dessas crises.
Comer é uma necessidade tão fundamental para nossa existência que é estranho questionar a
sabedoria de propor que a FAO – criada em 1945 para acabar com a fome – faça tudo o que
esteja ao seu alcance para ajudar todos no mundo a terem acesso a três refeições por dia.
Quase um bilhão de pessoas – uma em cada sete habitantes de nosso planeta – sofre fome
crônica. Não por falta de alimentos, mas porque não ganham o suficiente para pagar a comida
que precisam.
Essas pessoas vivem na armadilha da fome, e escapar dela por seus próprios meios é
impossível. Como qualquer um que tenha pulado algumas refeições sabe bem, a fome debilita
o corpo e reduz a concentração. No longo prazo tem efeitos funestos. Nos adultos, impede de
trabalhar e, nas crianças, impede seu aprendizado escolar. As pessoas desnutridas são mais
suscetíveis às doenças, e sua expectativa de vida é baixa. Se uma mãe sofre fome na gravidez
e não pode proporcionar comida suficiente aos filhos antes do segundo ano de vida, estes
sentirão o dano durante toda a existência.
Há quem afirme que as pessoas têm fome por sua própria culpa. Mas a maior parte dos
famintos é vítima de processos econômicos globais e nacionais que têm o efeito colateral de
ampliar a brecha entre ricos e pobres. Sabemos que investir na erradicação da fome, em
especial com programas que proporcionem às famílias muito pobres subvenções para permitir-
lhes comer adequadamente, não é caridade, mas um investimento muito produtivo.
Os resultados são melhores quando as mulheres administram esses subsídios. Este tipo de
proteção social permite às pessoas ficar de pé por si mesmas e começar processos de
progresso econômico, sobretudo onde são mais necessários, nas comunidades mais próximas.
O consequente aumento da demanda de alimentos estimula a produção local, o que favorece
os pequenos agricultores se estes receberem um apoio adequado. A ação pública é
fundamental para que se consiga isto.
Dedicado ao desenvolvimento rural por mais de três décadas, sei que aumentar a produção em
comunidades pobres tem muitos efeitos positivos, inclusive além das próprias comunidades.
Como muitos outros, afirmo que o acesso a uma alimentação adequada é um direito humano.
Como economista, também sei que a satisfação desse direito de centenas de milhões de
pessoas não só colocará fim ao sofrimento desnecessário em grande escala, como também
será o arauto de uma nova era de prosperidade mundial e contribuirá para a obtenção de uma
paz duradoura.
Não é uma simples ilusão. Vi com meus próprios olhos o que ocorre em países que
enfrentaram com seriedade o problema da fome. Perguntem a qualquer ganês, vietnamita ou
brasileiro sobre o impacto dos programas contra a fome em seus próprios países e estou certo
de que confirmarão minhas impressões.
* * José Graziano da Silva é ex-ministro da Segurança Alimentar e Luta Contra a Fome
do Brasil, subdiretor-geral e representante regional para a América Latina e o Caribe da
FAO, designado candidato à direção
Link: http://www.tierramerica.info/nota.php?lang=port&idnews=3829